“Assim como um dia bem aproveitado proporciona um bom sono, uma vida bem vivida proporciona uma boa morte.”
(Leonardo da Vinci)
Nossos rituais tratam de forma exaustiva os graus que compõem a Maçonaria Simbólica. Entretanto, por motivos diversos tais como as várias camadas presentes nos simbolismos e alegorias utilizadas para nos transmitir as muitas mensagens e observações sobre o caminho em busca do conhecimento a ser percorrido pelo Iniciado em nossa Ordem, desde o seu ingresso em nossa instituição até o seu desbaste e exaltação como Mestre (trajetória esta que aqui convencionei chamar de “A Jornada do Maçom”) muitos elementos importantes acabam passando despercebidos por um grande número de Irmãos. O objetivo desta peça é chamar a atenção para pontos de essencial compreensão por todos aqueles que buscam estudar de forma séria nossos augustos mistérios, utilizando as fases da vida humana como analogia aos graus simbólicos.
No ritual de iniciação, é descrito minuciosamente o protocolo a ser seguido para que um novo Maçom nasça no seio da Loja que o escolheu. Para tal, é necessário que o candidato seja “livre e de bons costumes” e que “desejoso de ver a luz” venha humildemente pedi-la. Essas informações que a princípio parecem despretensiosas foram cuidadosamente colocadas no texto para estabelecer que: para nascer pra nossa Ordem, o candidato deve ser independente, livre de preconceitos e superstições, cultivar bons hábitos e princípios salutares, buscar o aperfeiçoamento pessoal e principalmente ter a humildade de admitir a sua própria ignorância. A conhecida frase “a Maçonaria: torna homens bons ainda melhores” não poderia ser mais adequada, uma vez que honra e moral são qualidades imprescindíveis para o Maçom, sobretudo para que os juramentos prestados não sejam meros discursos vazios. O conhecimento que a Maçonaria tem a oferecer deve ficar restrito aos seus iniciados, pois o estudo se faz necessário para a verdadeira compreensão dos ensinamentos. Além de humildade, honra e caráter, o candidato também deve demonstrar coragem para combater “os inimigos da humanidade” e por isso ele é submetido a provas. Ao final da iniciação, o candidato finalmente começa a vislumbrar a luz, tal qual um recém nascido que há pouco vivia na escuridão e acaba de nascer para uma nova vida.
Assim, o Neófito nasce em nossa ordem e, já como Aprendiz, começa a ser instruídos em nossos arcanos. Logo na terceira instrução, o 1º Vigilante lembra que foi recebido como Maçom “nem nu, nem vestido”, nos remetendo a inocência da infância. Da mesma forma, o 2º Vigilante revela que a primeira viagem da iniciação é uma analogia aos “primeiros anos do homem e da sociedade, onde as paixões ainda não dominadas pela razão e pelas leis, conduziam os homens e as sociedades aos excessos”. Dessa forma, podemos afirmar então que o grau de aprendiz Maçom é análogo à juventude do homem, onde este dá seus primeiros passos, observando atentamente o funcionamento do mundo (Oficina) ao seu redor. Aprendendo através das instruções, da observação e da repetição. O neófito começa então a se desbastar e é na sua juventude maçônica que ele é ensinado a “vencer suas paixões, submeter sua vontade”, pois se não for guiado haverá de errar e se entregar a suas paixões.
O primeiro grau pode ser resumido moralmente através da metáfora da morte e renascimento e talvez seja o grau que mais explicite o paralelo entre seus ensinamentos e uma das fases vida humana. Mas tão importante quanto essa lição deve ser o cuidadoso acompanhamento pelos Mestres aos Aprendizes. Tal qual um jovem sedento por saciar suas necessidades sem se importar com os limites, os Aprendizes devem ser orientados a não buscarem conhecimento, pelo menos nesse primeiro momento, em fontes que não os rituais do Grau 1. Os Aprendizes devem ser trabalhados de forma com que se tornarem bons Mestres (tal qual a criança que recebe os cuidados, a educação e o zelo que a tornarão um adulto íntegro e instruído), pois o Aprendiz de hoje é o futuro da Maçonaria.
Assim como o 1º grau representa a infância e a juventude do homem, o 2º grau, o de Companheiro Maçom, é uma verdadeira metáfora à fase da vida adulta (também expressa pela virilidade): após deixar as trevas e começar a vislumbrar a luz, que já como Aprendiz recebe as devidas instruções, o Maçom que, “solícito em seus trabalhos, aspira progredir nos conhecimentos de nossa Ordem” é submetido ao ritual de Elevação.
Talvez por ser a racionalidade uma das principais características do adulto, em sua Elevação o candidato a Companheiro não é mais submetido a provas físicas, mas sim a cinco viagens, a fim de “compreender o sentido moral e simbólico do grau”. Esse detalhe deixa evidente a natureza reflexiva do 2º grau, que em diversas ocasiões convida os novos Companheiros ao estudo “das coisas e dos seres”, bem como ao “desenvolvimento da idéias”. Segundo nosso ritual, o Companheiro Maçom “já mais esclarecido e apto à compreensão de assuntos mais elevados” da nossa Instituição, deixa o estudo dos materiais de construção, próprio do grau 1, e é guiado em busca da correta interpretação moral e espiritual de nossa Ordem: o trabalho manual está encerrado, nessa fase o foco da formação do Maçom deve ser a reflexão teórica, só então ele poderá ambicionar o terceiro e último grau da Maçonaria Simbólica.
O 2º grau é por natureza um teste à paciência dos Companheiros. Os Mestres devem mostrar cuidado e zelo e um planejamento se faz necessário para que os Companheiros não se sintam esquecidos durante o interstício. Segundo nosso ritual, o escopo do grau é “executar na prática o plano teórico traçado pelos Mestres” e para tal os Companheiros poder ser usados como auxiliares dos Mestres na fiscalização dos Aprendizes, não à toa o Grau de Companheiro foi instituído apenas na Maçonaria Especulativa: durante todo o período operativo havia apenas um Mestre na Oficina, o Venerável Mestre, sendo todos os demais membros da Oficina Aprendizes ou Companheiro. Devemos da especial atenção a este grau pois é nele que o Mestre Maçom é forjado. Os Mestres devem estar atentos para que a ambição por chegar ao último grau simbólico não domine a mente dos Companheiros, de forma que não se torne os “maus companheiros”, desejando chegar ao grau apenas pelas honrarias e status e não com o nobre propósito de auxiliar no aprendizado dos Aprendizes e Companheiros.
Desta forma chegamos finalmente às considerações acerca do último grau simbólico, o de Companheiro Maçom. Como já vimos, desde a iniciação, o Maçom passa pelo seu nascimento, infância e juventude, chegando à fase adulta. Através do labor e da reflexão ele finalmente é admitido ao 3º Grau, por meio da Exaltação. Como citado anteriormente, o Mestre Maçom é forjado no 2º grau, pois simbolicamente, após um período de reflexão o Maçom adulto chega finalmente à sabedoria, ou à fase de maturidade.
A peculiaridade do terceiro grau é que a exaltação nos apresenta uma lenda em vez de provas físicas ou viagens. Muitos Irmãos ainda demonstram terem dúvidas sobre o motivo, e alguns nunca chegam a perceber a real importância desse detalhe: quando o 3º grau foi instituído entre 1725 e 1730 e buscou-se alertar para as falhas da natureza humana e como desbastar as nossas asperezas. Mais que isso, a lenda do terceiro grau nos mostra os perigos da má formação dos Maçons que freqüentam as nossas reuniões, cuja ambição guia os passos em direção às ultimas consequências para que seu intento seja alcançado. Por isso a importância dos primeiros graus na formação dos Obreiros, visando a “produção” de Mestres exemplares para nossa Ordem.
A Maçonaria nos dá um vislumbre de sua grandiosidade e de seus infindáveis ensinamentos ao nos apresentar a lenda do terceiro grau, pois esta nada mais é senão uma metáfora para o real perigo que ameaçou, ameaça e sempre ameaçará a Maçonaria: os maus Companheiros que golpeiam Mestre Hiram, sendo nosso falecido mestre uma representação alegórica da própria Maçonaria. Esses maus Companheiros são os que estão sempre em busca de saciar sua vaidade e deixam os ideais maçônicos em segundo plano, sempre privilegiando seu ego e o seu plano de poder pelo poder. São aqueles que não respeitam as diferenças e sempre querem faze valer a sua opinião por meio da força e intimidação. A Maçonaria deve ser vivida, seus ensinamentos seguidos e aplicados por cada Maçom que deve ser um exemplo à sociedade profana em que vive. Por isso a nossa Instituição será tão sólida quanto cada obreiro que a compõe.
Concluo constatando que os três graus simbólicos nos apresentam uma jornada paralela à vida, com muito trabalho reflexão e constante busca pela sabedoria, a qual devemos nos entregar de corpo e alma visando deixar um legado positivo para as gerações futuras.



