A lenda de Hiram, também conhecida como a “Lenda do Grau 03”, envolve três míticos personagens, a saber: Salomão, Hiram – Rei de Tiro -, e Hiram Abiff, o responsável pela edificação do Templo de Jerusalém. O relato envolvendo tais personagens é transmitido ao Mestre Maçom na sua Exaltação, sendo, portanto, basilar ao desenvolvimento do referido Grau.
O que poucas pessoas sabem é que há uma teoria difundida desde o Século XVII que envolve supostas viagens do Rei Salomão ao Rio Amazonas, cerca de mil anos antes de Cristo, e milhares de anos antes das navegações empreendidas por nomes famosos, tais como: Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral e Vicente Pinzón. Antes mesmo até de Erik, o Ruivo - o famoso navegador viking que teria descoberto a América por volta do Século X.
Trata-se de uma teoria publicada em Manaus ainda no ano de 1876, fruto de uma pesquisa encomendada pelo governo português para celebrar os 300 anos do descobrimento do Brasil – e que acabou não sendo publicada exatamente pelo fato de apontar possíveis “descobridores” (bem) anteriores àqueles cuja História ocidental celebra.
O pesquisador responsável foi Enrique Vicomte Onfroy de Thoron – um filósofo historiador profundo conhecedor do latim, do grego e do hebraico, cuja obra restou guardada no livro Annais da Biblioteca e Archivo Publico do Pará, de 1905, sob o título Voyages des Flottes de Salomon et d’ Hiram en Amérique: position geographique de Parvaim, Ophir & Tarschisch.
A teoria em epígrafe parte do pressuposto da existência, milhares de anos antes da Era Cristã, do povo atlante, que supostamente manteve contato com os povos que habitavam tanto o continente americano como o europeu. O conhecimento dos atlantes sobre a navegação teria sido transmitido, de forma ainda não elucidada, aos tartésios e aos fenícios.
Tiro, cidade de nascimento de Hiram (o Rei ), está localizada na região do Líbano, antiga Fenícia. Hiram, portanto, era o Rei de um povo – o fenício – que teria recebido conhecimentos acerca da tecnologia da navegação dos atlantes.
Amigo próximo do Rei Salomão, Hiram – Rei de Tiro – teria celebrado com aquele vários contratos que ensejavam a construção de embarcações marítimas capazes de empreender grandes navegações. Sabe-se, por exemplo, que o Cedro-do-Líbano (madeira típica da região) seria excelente para a construção de embarcações, o que respalda ainda mais a dita teoria.
O objetivo dos contratos supra seria a exploração das riquezas presentes nas cidades bíblicas de Ofir, Parvim e Tarschisch, com viagens que poderiam durar até mais de três anos e que se dirigiam, segundo o pesquisador, para regiões localizadas na América.
Antes mesmo de Enrique de Thoron, teorias semelhantes já haviam sido suscitadas por outros pesquisadores, tais como Robertus Comtaeus Nortmannus (1644) e Georg Horn (1652). Diodoro Sículo, nascido na antiga Sicília, por exemplo, entre os anos 90 a.C. e 30 a.C., teria feito um relato envolvendo viagens fenícias pelo oceano até o Brasil, valendo-se das correntes marítimas para a realização de tal feito. O relato de Diodoro Sículo é mencionado por Ludwig Schwennhagen em seu livro “História Universal”.
Em sua pesquisa, Enrique de Thoron afima que muitos relatos presentes no Livro dos Reis, na Bíblia, referem-se, na verdade, ao Rio Amazonas. Exemplifica-se:
“Também as naus de Hirão, que de Ofir levavam ouro, traziam de Ofir muita madeira de almugue, e pedras preciosas” (Reis, Cap. 1 vers. 11)
“E vieram a Ofir, e tomaram de lá quatrocentos e vinte talentos de ouro, e os trouxeram ao rei Salomão” (1 Reis 9: 28)
“E enviou-lhe Hirão, por meio de seus servos, navios, e servos práticos do mar, e foram com os servos de Salomão a Ofir, e tomaram de lá quatrocentos e cinqüenta talentos de ouro; e os trouxeram ao rei Salomão” (2 Crônicas 8:18)
Na teoria de Enrique de Thoron, perceba-se, o suposto “país de Ofir” (ou Ophir) estava na vertente do Rio Amazonas, próximo ao Rio Japurá. Já o território de “Parvim” seria a bacia superior do Rio Amazonas, próximo ao Peru – e, por fim, Tarschisch também seria na Amazônia.
Alicerça a tal hipótese os mundialmente famosos “Diálogos de Platão”, onde o filósofo aponta, por meio dos relatos de Sólon e Critias, a posição da Atlântida e, mais ainda, da terra que lhe sucede – ou seja, da “grande terra firme”, que “é um verdadeiro continente”. E completa: “atrás da terra firme está o grande mar”. Pergunta-se: não é esta uma descrição clara da América com o Oceano Pacífico?
Os antigos egípcios parecem corroborar com a existência da Atlântida. Explica-se:
Na narrativa de Teopompo, um historiador grego, Sileno – tutor de Dionísio (o deus grego do vinho), teria ensinado a Midas que as terras ainda mais distantes após a Ásia seriam “o único continente”, de imensa extensão, denominado “Merópio”, que seria governado por “Mérope”, filha de Atlas.
“Atlas”, em egípcio-líbio, significa “do país”, como um descendente dos Atlantes. Por outro lado, “Antis”, na língua quíchua, remete aos Andes da América equatorial. Tal caleidoscópio de palavras não pode significar outra coisa, senão que os relatos de “Merópio” referem-se, na verdade, à América.
Thoron, exímio conhecedor do grego e da língua quíchua, percebeu que esta possui centenas de palavras gregas (!!!!). E mais: curiosamente, as divindades gregas e romanas têm origem etimológica no quíchua (!!!!). Não obstante, alguns hábitos – tais como as vestes sacerdotais e a circuncisão – eram muito semelhantes entre Egípcios, povos da América e Hebreus.
Outros indícios são ainda mais assustadores: "Salomão adornou a sua casa com o ouro de Parvaim" (2 Crônicas 3:6). Mas onde fica “Parvaim”? A palavra é uma corruptela de “Paruim”, que remete aos Rios Parú e Apu-Parú (‘o Rico Parú’), no território oriental do Perú, cujo plural é o Paru-im dos Hebreus.
Ainda mais assustadora é a origem de “Ofir”, cujo nome já fora suscitado.
Em hebraico, escreve-se “Ofir” de duas formas: “Apir” ou “Aypir”. No Livro de Reis 9:28, em hebraico, está escrito “Aypira”. Pois bem: AYPIRA nada mais é do que o nome mal pronunciado de JAPURÁ, afluente do Amazonas e do Solimões – em quíchua: YAPURÁ, compondo-se do “y” (água) e “apura” (rio de Apir). Tal vocábulo, destarte, demonstra-se inteiramente quíchua, e “apir”, entre os antigos indígenas latino-americanos, refere-se aos mineiros que trabalhavam na água em que se lavava OURO!
A miscigenação linguística não para por aí. Como bem explica Viriato Correa: “No mapa de Fritz, na margem esquerda do Yapurá aparece uma montanha que Lacondamine diz conter prodigiosa quantidade de ouro. Dela desce o Rio del oro, cujo nome indigena é ikiari. Ikir, em hebraico, é "precioso" e iari "rio" — o "rio precioso". O rio desemboca no Yumaguari. Ora, yuma, "ouro nativo", é palavra indigena unida aos dois vocabulos hebraicos gu (centro) e ari (cavidade). Yumaguary significa, pois, "cavidade centro do ouro nativo". E mais : o Yapurá tem um afluente aurífero chamado Masai ou Masahy. Masai é palavra formada do hebraico massar "rico" e de i "agua" em quichua. Masai — "agua rica". Os hebreus davam o nome de masaroth aos tesouros consagrados” (CORREA, Viriato. Histórias da Nossa História – 1883 – pg. 94).
Por fim, Thoron afirma, enfaticamente, que o nome “Solimões” deriva de “Salomão”, como um nome dado ao Rio pelas frotas do Rei Sábio. Não obstante, “Salomão” é “Soliman” em árabe – e, à revelia de toda coincidência, “Soliman” é o nome de uma tribo situada a oeste do Pará.
In fine, Thoron conclui que Ofir, Parvim e Tarschisch foram abandonadas pelos exploradores hebreus, dadas as dificuldades da sua navegação.
Não se sabe se as frotas do Rei Salomão e de Hiram, Rei de Tiro, navegaram as caudalosas águas do Amazonas. Sabe-se, entretanto, que muitos são os indícios, transformando a curiosidade em forte impressão. Leva, no mínimo, a uma reflexão sobre possíveis passagens de uma história não contada – merecendo a devida atenção e reconhecimento dos Irmãos hodiernos.



